

Tenho uma certa inquietude ou mesmo compulsão por escrever. Não almejo vôos literários, reconheço minhas limitações estéticas...)
Na verdade, a escrita é um brado por timidez ou vaidade, no meu caso por ambas. Penso que ninguém escreve só para si... são mensagens enviadas para leitores reais ou fictícios, ou, ainda, formas de expressão e apelos expedidos para um possível leitor benevolente ou que padeça de insônia crônica... Além disso não saberia expressar o porquê de escrever, algo que me acompanha de tenra idade, e que traz uma imensa satisfação íntima.
Ediloy

LEGADOS EM PROSAS E VERSOS
(aos escritores e poetas de todos os tempos)
belo é sonhar vagar em todos os tempos
encantos sonhados por todos os antepassados
produtos sublimados de seus eus angustiados
suas preces súplicas de desterrados
na Terra de infortúnios e aprendizados
crianças chorosas em seus passos
na alma poeta de cada Ser
lágrimas lamentos purificados
palavras sentires santificados
testemunhos de dores e achados
alçados de incrédulos a venerados
poetas escritores em todas as eras
esferas transcendentes e belas
vestígios marcados em sua letras
heranças sentimentos reverberam...
Ediloy A.C. Ferraro

EGOCÊNTRICO
eu centro
de mim
me basto
me busco
alimento
e oriento
buscas
rusgas
dores
ventosas abertas
esponjas
absorvem o mundo
me visto
me olho
me sinto
de mim
referências
sensações
farol na imensidão
tênue luz
olhares obscuros
meu leme
minha fé
meu norte
meu barco
neste mar
neste céu...
Ediloy A.C. Ferraro
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RESERVA DE AFETOS
quando seca a paisagem
voltamos ao colo da infância
saciando na doce ingenuidade
recobrando
a sensibilidade
que nos faz manso
diante às tempestades...
Ediloy A.C. Ferraro

VIVER...
viver é uma sequência cronológica
em dias de sol ou chuva
temperaturas amenas ou não...
é a nossa ilusão que encanta
fazendo de cada manhã
um recomeço prazeroso
bendita ilusão que encanta
olfato que cheira sutilezas
sentidos que porejam emoções
fazendo da sucessão de dias
esperanças lindas de se viver
em cada amanhecer que a vida nos concede...
Ediloy A.C. Ferraro

APELOS EM ORAÇÃO
não se permita o desespero
acalente sonhos e sorria
mantenha o leme do seu barco
recicle se o panorama é tedioso
volte-se e busque novos olhares
sinta-se capaz de pelo menos sentir
acredite que tudo é efêmero
dores e desilusões
agudas hoje amainadas amanhã
reaja e não se abata
há sempre soluções
não se maltrate tanto
se a dor for inevitável
a curta com seu fel
e cresça com sua lição
e, mesmo só,
há milhões de seres
que palpitam e sofrem
que amam e sorriem
anseiam e acreditam
há vidas, enfim...
Ediloy A.C. Ferraro

O AVESSO DA APARÊNCIA
sou o que querem que eu seja
amável cortez simpático bom
nem sempre cumpro tudo bem
vezes sou eu mesmo nas sombras
ignoto de meu eu em escombros
ironizo as conveniências sociais
mesclo atitudes ora aceitas noutras não
panela de pressão artista em frangalhos
nesta barafunda a minha personalidade
toda a humanidade de meu Ser aflora
dual e magnífico sobranceiro e tímido
menino às vezes e adulto em conflitos
nesta confusão de minha alma inquieta
plasmo a matéria habito me apresento
às platéias represento e engulo o grito
levo os dias sucessivos datas agendas
proscrito de outras terras sigo o rito
dançando música conforme o ritmo
mas por dentro atento ebulição
a aparência socialmente aceita
aflito Ser em busca de caminhos...
Ediloy A.C. Ferraro

QUEM DERA !
Queria dizer
em sons
a beleza da lua, o vigor do sol
a cantilena matinal dos pássaros
as gotas grossas da chuva de verão
o ladrar do cão vadio à distância...
Na canção garimpada
na viola, violino ou atabaque
entoar sensações, sentimentos
Preenchendo de luz espaços
no canto inspirado
urdido, criado, sentido...
Como a guache sobre tela
na sensibilidade do pintor
colorir a vida...
quem dera !
Ediloy A.C. Ferraro
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VISÃO DE BELEZAS

do parapeito da janela
cultivadas lindas rosas
vermelhas brancas amarelas
com tal desvelo o fazia
que parecia no dia a dia
as flores rejuvenesciam
tanto apreço e carinho
no cultivo aprumado
nas podas dos espinhos
na sua rotina persistente
a observava ao longe
também de outra janela
a beleza do pequeno jardim
suspenso enfeite no ar
arranjo de várias cores
atrativo de pássaros
colibris pardais
visitavam a florista
suas mãos delicadas
preciosas de artista
encantava os olhares
de seu olhar contudo
pouco ou nada via
soube depois por outros
era uma jovem cega
entretida em sua lida
mimando sua roseira
como uma forma
toda sua
de saudar um novo dia...
Ediloy A.C. Ferraro
CRONOLOGIA DO TEMPO

ontem era presente
agora já é distante
folhinha descartada
nesta hora momento
em breve será virado
e o hoje será passado
a notícia tem vida curta
tempo exato do anúncio
mas logo depois mutável
fato ocorrido comprovado
longevidade finita duração
em nova versão renovada
nova, oposta ou remendada
atualizada acrescida alterada
matéria velha vencida mudada
antes que sejamos páginas viradas
lembranças amareladas esquecidas
vivamos no hoje o amanhã sonhado...
EdiloyA.C. Ferraro

Carta a um imaginário destinatário
...olha, eu quero me confidenciar contigo, falar de coisas que as pessoas em suas pressas não me ouvem...
mas que tu, que não existe, portanto, tens todo o tempo do mundo e a paciência que só mesmos os pacientes teriam comigo...
...apraz-me descrever imagens, algo insólito e difícil só mesmo em metáforas, ou seja, comparações, me faço entender...
é que a linguagem escasseia do universo que quero apreender no restrito alfabeto que disponho...
...feliz é a possibilidade da escrita, pelo menos fugimos aos escárnios de loucos, os que falam sozinhos por falta de interlocutores...
quem haveria de ouvir relatos sem pés e nem cabeças, entrecortados por pausas e reticências num retalho/mosaico de entrecortadas pausas ?...
...me cansa as tardes, melancolias, me salva os dias pelas manhãs promissoras e me rendem as noites no torpor dos sonos ou na inquietude das insônias...
...não quero somar lágrimas ao mar melancólico e estéril dos tristes e deprimidos, creio que neste sentido seja até otimista, o que me angustia é esta rebeldia de não ceder aos fatos tampouco saborear as frases feitas de eternos incentivos viver é remar, indiscutível, rememos, rememos...
....algo há a mais que nos distinga da animal condição de sobrevivência nos alimentarmos, procriarmos, defecarmos e esperarmos as coisas em calmarias, ou ainda, amontoarmos moedas na esperança de mansa velhice...
...mas ainda me entontece tanta certeza, tantos manuais e filosofias, tantas crendices, resta-me, para ser ouvido, tentar ser lido, em sínteses palavras...
...não lhe tomei o seu tempo, aturdido como todos, nos torvelinhos de suas rotinas, como cães correndo atrás do próprio rabo, elencando fetiches para dar rumo e sentido...
afinal, você é apenas um pretexto para não me chamarem de louco que fala sozinho...
Ediloy A.C. Ferraro